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Ensino Bilíngue

Carta aberta aos educadores bilíngues

12/06/2020

“Good morning, Miss!” era a primeira coisa que ouvíamos de nossas crianças e alunos, ao recepcioná-los na nossa rotina escolar. Em seguida, na mesa do café da manhã, entre fruits, conversas sobre o dia anterior e “chocolate milk”, dava-se início um dia cheio de expectativas sobre o que estava porvir. 

De que maneira transpor algo que é tão pautado na ideia de vivenciar, experimentar e de estar junto, para o formato remoto? 

Como naquele livro que, de tão complexo, exige do leitor um constante retorno a determinados trechos, essa é uma pergunta que precisa ser lida novamente. De fato, não estamos mais juntos fisicamente, mas continuamos vivenciando e experimentando muita coisa, talvez até mais intensamente do que antes. Estamos juntos, por meio de telas, que nos convidam a desbravar os multimeios, já previstos nas diretrizes curriculares da BNCC e, agora, uma competência urgente não só para as crianças e jovens mas, principalmente, para os educadores, sejam eles bilíngues, especialistas ou polivalentes. Fomos obrigados a trocar, neste período de isolamento social, a sala de aula pelo ensino remoto. Professores e alunos, trocaram a escola pela casa e com isso, uma convivência ainda maior com a família. Os adultos se viram obrigados a gerenciar filhos, trabalho e tarefas domésticas. Mudanças que geram expectativas e frustrações das quais ninguém está imune. Não há álcool em gel ou água e sabão que nos livrem disso, e foi necessário um cuidado da escola em pensar como essas propostas remotas chegariam na casa das famílias. 

Situações conflituosas como estas, são encaradas como potentes situações de aprendizagem e a habilidade de lidar com sentimentos, um conteúdo importante dentro do currículo, afinal, o ser humano sente o tempo inteiro. As crianças e adolescentes não são considerados como máquinas, que apenas recebem informação. Assim, a educação bilíngue dialoga com a concepção do aluno como o centro do processo de ensino-aprendizagem e nós, educadores, como os mediadores desse processo que se inicia desde os primeiros anos de vida e se perpetua por todas as fases seguintes. 

Aqui falamos de apenas um cenário dentro da concepção complexa do que é o ensino bilíngue no Brasil, tema sobre o qual muitos pesquisadores vêm se debruçando ao longo dos anos. Falamos da diversidade linguística e cultural que a instrução em duas línguas – no nosso caso o Português e o Inglês – proporciona aos alunos, sob uma perspectiva plural de sociedade (multiculturalismo). Desde o começo a equipe pedagógica se preocupou em não perder a essência desse trabalho, ainda que sujeito a transposição. Impossível dissociar as habilidades do bilinguismo, das necessidades atuais de nossas crianças e alunos, como: pensar nas coisas por diferentes ângulos (divergent thinking), na linguagem de diferentes maneiras (metalinguistic awareness) e ter a consciência das necessidades do outro ao se comunicar (communicative sensitivity), como coloca Ofélia Garcia (2009), professora e pesquisadora em educação bilíngue. 

A diversidade cultural que sempre esteve presente nas histórias, rimas, músicas, brincadeiras e vivências propostas na escola, agora está também nas diferentes culturas e vivências familiares do período de isolamento, tão ricas e importantes de serem compartilhadas, seja oralmente pelas crianças ou pelos jovens na escrita de um diário, inspirados na biografia de Anne Frank

As práticas de linguagem, que propõem um uso real e social da língua e já tornavam o trabalho significativo, agora aparecem em gêneros textuais e orais como conversas por vídeo chamada, uma mensagem no chat, um texto no e-mail, o passo a passo da receita feita por vídeo, o relato sobre o animal de estimação e sua rotina ou mesmo num passe de mágica quando a professora, misteriosamente, desaparece da tela após a contagem da criança “1, 2, 3… magic!”, uma brincadeira que leva a exploração das novas ferramentas, como estratégia para a manutenção do vínculo positivo com a Língua Inglesa. 

É certo que nossas manhãs e tardes já não são mais as mesmas e tivemos que reinventar a nossa prática, mas o nosso olhar cuidadoso nos alunos permanece e, ainda que no momento nada possa ser encarado como uma receita a ser seguida, podemos “ler” a situação atual imposta como uma nova página de uma importante documentação pedagógica na qual se inspirar. É preciso retomar experiências anteriores levando em consideração a identidade do nosso grupo e pensar, a partir de agora, nas possibilidades relevantes que este período traz para o desenvolvimento integral das crianças e jovens. É necessário reafirmar o nosso papel em colocar o saber como algo que é construído socialmente. E, em tempos de distanciamento social, é urgente se “conectar” com os alunos de uma maneira mais significativa e trazer à tona de volta sua autoria no processo de ensino-aprendizagem. 

“Educação bilíngue é, para nós, toda e qualquer instância em que as práticas comunicativas dos alunos e professores na escola normalmente incluem o uso de múltiplas práticas multilíngues que maximizam a aprendizagem e, ao fazê-lo, encorajam e desenvolvem tolerância em relação às diversidades linguísticas, bem como uma apreciação por línguas e proficiência bilíngue.” (Ofélia Garcia, 2009) 

Mayra Figo – Coordenadora e Professora do Módulo Green

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